setembro 23, 2026

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Guaratinguetá: Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito é reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil

A Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito de Guaratinguetá passou oficialmente a integrar o Patrimônio Cultural do Brasil. O registro foi aprovado nesta terça-feira (22), durante a 114ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizada na sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília.

Com a decisão, o cortejo será inscrito no Livro de Registro das Celebrações, categoria destinada a manifestações que envolvem festas, rituais, religiosidade, práticas coletivas e outras formas de expressão da vida social.

A tradição acontece todos os anos no Domingo de Páscoa e reúne aproximadamente 2 mil cavaleiros e cavaleiras, vestidos de branco. O percurso tem cerca de 20 quilômetros pelas ruas de Guaratinguetá, com os participantes organizados em duas filas.

O processo de reconhecimento foi iniciado há 11 anos, segundo Fernando Guimarães, presidente da Associação Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito de Guaratinguetá, entidade responsável pela organização do cortejo.

Imagem: Reprodução

Tradição reúne tropeirismo e devoção afro-católica

De acordo com o Iphan, a Cavalaria reúne duas tradições que fazem parte da formação cultural de Guaratinguetá e do Vale do Paraíba: o tropeirismo e a devoção afro-católica.

Segundo a memória local, tropeiros e viajantes ergueram, em 1726, a Capela de São Gonçalo do Amarante, dedicada ao santo considerado padroeiro dos viajantes.

Já em 1757, pessoas escravizadas colocaram na mesma capela uma imagem de São Benedito e criaram a Irmandade de São Benedito dos Irmãos Pretos Cativos da Vila de Guaratinguetá, responsável pela preservação de símbolos ligados ao santo.

Não há um registro histórico que determine exatamente quando o cortejo passou a ocorrer todos os anos. O Iphan aponta que a tradição se consolidou como prática coletiva a partir de 1888 e que, em 1948, já aparecia documentada como uma celebração incorporada ao calendário da cidade.

Cortejo é organizado por mantenas, clubes e Fila de Branco

A organização atual é feita pela Associação Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito de Guaratinguetá, fundada oficialmente em 1992.

Entre os integrantes estão os chamados mantenas, responsáveis por organizar as filas, conduzir bandeiras e estandartes e acompanhar o cumprimento das regras do cortejo.

Também participam seis clubes agregados, cada um com uniforme e identidade próprios, além da Fila de Branco, aberta a cavaleiros e cavaleiras que não possuem filiação fixa e fazem cadastro para participar.

Durante o trajeto, a Cavalaria faz paradas em cemitérios para prestar homenagens a integrantes que morreram. Familiares e amigos levam estandartes com fotografias dos homenageados.

A população também participa da celebração. Em diferentes pontos do percurso, moradores montam altares nas calçadas e nas portas das casas para acompanhar a passagem dos cavaleiros.

Mulheres passaram a participar a partir dos anos 1970

A Cavalaria também passou por mudanças ao longo das últimas décadas. A participação feminina começou nos anos 1970, quando Vera Aparecida de Paiva França, filha do chefe Evandro Paiva, se tornou a primeira mulher a desfilar montada.

Atualmente, existe um grupamento feminino dentro do cortejo. Crianças de 8 a 13 anos também participam como mantenas mirins, acompanhando os integrantes mais experientes e aprendendo as regras e os conhecimentos associados à tradição.

As mudanças organizacionais ganharam força a partir de 1975, período em que Evandro Paiva passou a liderar a manifestação. O processo culminou na criação formal da associação, em 1992, que passou a administrar o desfile com estatuto e regras próprias.

Mastro de São Benedito é um dos momentos centrais

Um dos principais momentos da celebração ocorre durante a procissão do mastro de São Benedito.

O mastro sai da Capela de São Benedito e Santa Cruz, na região central de Guaratinguetá, acompanhado pela coroa, pela bandeira e pela imagem do santo. A Cavalaria então faz a escolta até a Igreja do Puríssimo Coração de Maria.

A cerimônia também reúne as Caixas de São Benedito, formadas por quatro devotos que anunciam o ritual com toques de caixa, além das congadas e dos moçambiques, que participam com música, cantos e danças.

Na chegada à igreja, o mastro é erguido durante uma cerimônia acompanhada por orações e pelo toque das caixas. Os devotos colocam no objeto bilhetes com pedidos e agradecimentos.

Depois, os cavaleiros e cavaleiras seguem até a Praça São Gonçalo, onde realizam a chamada meia-lua. O movimento consiste em um giro quase completo dos animais e remete às evoluções realizadas pelos tropeiros diante da antiga capela.

Bandeiras e estandartes ajudam a preservar a tradição

O cortejo reúne diferentes elementos simbólicos, entre eles o mastro, a coroa, a bandeira e as imagens de São Benedito e São Gonçalo.

Os estandartes também possuem funções distintas. Alguns carregam imagens religiosas; outros identificam a associação e os clubes participantes. Há ainda os estandartes de homenagem póstuma, que levam fotografias de cavaleiros, cavaleiras e familiares que já morreram.

Os mantenas podem ser identificados por elementos específicos da vestimenta, como gravatas, faixas, broches e o cravo vermelho. Esses itens ajudam a diferenciar os responsáveis pela organização do cortejo dos clubes agregados e da Fila de Branco.

Outro costume preservado é o empréstimo ou aluguel de cavalos e muares. Segundo o Iphan, não é necessário que o participante tenha um animal próprio para desfilar. A cessão de animais é considerada parte da tradição e está associada à memória de famílias que, ao longo das gerações, disponibilizaram cavalos e muares para a celebração.

Registro reconhece uma tradição transmitida entre gerações

O reconhecimento federal coloca a Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito de Guaratinguetá entre os bens culturais registrados pelo Iphan no Livro das Celebrações.

O próprio instituto destaca que o patrimônio imaterial está relacionado a práticas, conhecimentos e celebrações transmitidos entre gerações e continuamente recriados pelas comunidades que os mantêm.

O pedido de registro da Cavalaria foi protocolado em 2015. O processo passou por análise técnica e chegou à decisão do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural em setembro de 2026.