São José do Barreiro: Fazenda histórica que recebeu Dom Pedro I pode virar hotel de luxo
Uma fazenda histórica do Vale do Paraíba, que recebeu Dom Pedro I dias antes da Proclamação da Independência, pode ser concedida à iniciativa privada para a implantação de um hotel de luxo. O imóvel está localizado em São José do Barreiro, no interior de São Paulo.
Construída no início do século 19, a Fazenda Pau D’Alho é considerada um dos mais preservados exemplares do ciclo do café no Brasil. O local mantém características raras, como muros de pedra, pau a pique e um amplo conjunto arquitetônico histórico.
Patrimônio histórico e arquitetônico preservado
O complexo inclui casa-grande, terreiro, senzala, cavalariça, tulha, oficinas, bateria de pilões, roda d’água, dois moinhos e depósitos, além de uma construção em alvenaria inacabada com 10 quartos. Ao todo, a área tem 19 hectares.
A propriedade integra um programa piloto do Ministério do Turismo, em parceria com Portugal, que prevê a concessão de bens históricos à iniciativa privada por meio do Revive Brasil. A proposta prevê 45 anos de concessão, com restauro completo da fazenda e a construção de um hotel de alto padrão, ligado ao núcleo histórico por uma passarela elevada.
Hotel de luxo e investimentos previstos
Segundo o plano de negócios elaborado pelo BNDES, o hotel teria 60 quartos, com diárias estimadas em R$ 1,6 mil. A nova edificação ficaria a pelo menos 15 metros dos muros históricos, respeitando a visibilidade do patrimônio.
Com a expansão, a área construída passaria de 2,7 mil m² para 8,3 mil m². O investimento total estimado é de R$ 63,1 milhões, sendo R$ 52,4 milhões destinados apenas à implantação do hotel. O contrato de concessão tem valor estimado em R$ 10,9 milhões, incluindo R$ 10,7 milhões obrigatórios para o restauro.
Debate e resistência local
A proposta, no entanto, não é consenso em São José do Barreiro, cidade com cerca de 3,8 mil habitantes. Um abaixo-assinado virtual, com aproximadamente 500 assinaturas, reúne moradores contrários à concessão. O grupo aponta riscos de descaracterização do patrimônio e impactos ambientais.
Em resposta, o Ministério do Turismo afirmou que a licitação exigirá o princípio da mínima intervenção, garantindo a preservação da autenticidade histórica. A pasta também ressaltou que não há autorização para supressão de vegetação nativa, especialmente em áreas da Mata Atlântica ou próximas ao Parque Nacional da Serra da Bocaina.
Acesso público e preservação garantidos
Segundo o governo federal, o imóvel continuará pertencendo à União e permanecerá aberto à visitação pública. Ao fim do contrato, o hotel e todas as melhorias incorporadas passarão ao patrimônio público.
A estimativa é de até 73 mil visitantes no primeiro ano, caso a entrada seja gratuita, ou cerca de 37 mil, se houver cobrança. A média projetada é de 44 mil visitantes por ano ao longo da concessão.
Importância histórica nacional
A Fazenda Pau D’Alho foi construída por volta de 1817, pelo capitão João Ferreira da Silva, e é tombada como patrimônio cultural nacional desde 1968. Além de Dom Pedro I, o local também recebeu o naturalista francês Saint-Hilaire, em 1822.
Inicialmente voltada ao cultivo de milho e arroz, a fazenda tornou-se símbolo da fase inicial do ciclo cafeeiro, mantendo características de fortaleza rural, cercada por muros e edificações defensivas.
A minuta da licitação segue em consulta pública até 6 de fevereiro. A expectativa é que a versão final do edital seja apresentada cerca de um mês e meio após o encerramento do prazo.

