setembro 2, 2026

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Vale do Paraíba: estudo projeta secas mais longas e intensas no Rio Paraíba do Sul até o fim do século

Um estudo científico publicado em agosto de 2026 aponta que os períodos de seca na Bacia do Rio Paraíba do Sul podem se tornar mais longos e intensos até o fim deste século.

As projeções indicam possíveis mudanças especialmente nas regiões dos reservatórios de Paraibuna, Santa Branca e Jaguari, no Vale do Paraíba. Segundo o trabalho, as secas podem ocorrer com intervalos maiores, mas cada episódio tende a apresentar maior duração e severidade entre 2021 e 2100.

A mudança pode aumentar os desafios relacionados ao armazenamento de água, abastecimento público e operação do sistema hídrico, que possui conexão direta ou indireta com mais de 20 milhões de pessoas no Sudeste.

O estudo, intitulado “Secas futuras na Bacia do Rio Paraíba do Sul, Brasil: seleção de modelos climáticos orientada por desempenho e projeções multi-modelos”, foi publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos (RBRH).

O trabalho foi produzido por Lucas Pereira de Almeida, Rosa Maria Formiga-Johnsson, Ályson Brayner Sousa Estácio e Alfredo Akira Ohnuma Júnior.

Imagem: Wikipédia

Secas podem ser menos frequentes, mas mais persistentes

Os pesquisadores analisaram dois períodos futuros: 2021 a 2060 e 2061 a 2100.

Para chegar às projeções, foram comparados registros históricos de chuva com diferentes modelos climáticos e cenários de mudanças climáticas.

A principal conclusão é que os eventos de seca podem se tornar menos frequentes, porém com tendência de maior duração e intensidade.

Na prática, isso significa que os períodos secos poderiam ocorrer com intervalos mais longos. Quando acontecessem, entretanto, poderiam permanecer por mais tempo e acumular déficits maiores de precipitação.

A tendência aparece na maior parte das sub-bacias analisadas e nos dois cenários climáticos considerados no estudo.

O sinal se torna mais evidente no período entre 2061 e 2100, com destaque para o alto Paraíba do Sul, onde estão alguns dos principais reservatórios relacionados à segurança hídrica do Vale.

Paraibuna aparece entre os pontos de atenção

O Reservatório de Paraibuna possui a maior capacidade de armazenamento do sistema e desempenha papel importante na regularização das vazões do Rio Paraíba do Sul.

Nos dados históricos utilizados na pesquisa, a duração média das secas na sub-bacia de Paraibuna foi estimada em aproximadamente 0,65 ano.

Em um dos cenários avaliados para o período de 2061 a 2100, a projeção multimodelo chega a 1,82 ano.

O resultado representa uma duração próxima de três vezes a observada no período histórico utilizado como referência.

Na sub-bacia de Santa Branca, a projeção também aponta aumento. No mesmo cenário e período, a duração média estimada chega a 1,68 ano.

A duração dos períodos secos é relevante para o planejamento hídrico porque os reservatórios precisam acumular água durante períodos de maior precipitação para ajudar a manter as vazões durante os meses mais secos.

Índice de severidade também aumenta

Outro indicador analisado pelos pesquisadores foi a severidade das secas.

O índice não considera apenas o tempo de duração do evento. Ele leva em conta também o déficit acumulado de precipitação durante o período seco.

Na sub-bacia de Santa Cecília, no trecho médio da bacia, no estado do Rio de Janeiro, foi registrado o maior valor projetado no cenário de emissões mais elevadas para 2061 a 2100: 58,46.

Paraibuna também apresenta aumento nas projeções. No cenário intermediário para o fim do século, o índice chega a 25,91.

Em Santa Branca, o valor projetado alcança 21,63.

Os números não correspondem a uma porcentagem de falta de água nem significam, diretamente, uma determinada redução no nível dos reservatórios. Trata-se de um índice climático utilizado para comparar a intensidade e a persistência das secas.

Intervalo entre as secas pode aumentar

A pesquisa também aponta uma possível ampliação do intervalo entre os eventos.

Nos registros históricos avaliados, o intervalo médio ficou próximo de 1,53 ano considerando o conjunto das áreas estudadas.

Nas projeções futuras, esse período aumenta em diferentes sub-bacias.

Em Paraibuna, o intervalo entre os eventos pode chegar a 2,39 anos entre 2061 e 2100 no cenário SSP2-4.5.

Em Santa Branca, a projeção chega a 2,24 anos.

Já em Santa Cecília, o cenário SSP5-8.5 aponta um período de retorno de 2,60 anos no fim do século.

Por isso, uma eventual redução na frequência dos eventos não representa necessariamente diminuição do risco. A preocupação está na combinação entre intervalos maiores e secas potencialmente mais prolongadas e severas.

Modelos climáticos foram usados nas projeções

A pesquisa utilizou dados do CMIP6, conjunto internacional de modelos climáticos empregado em estudos sobre mudanças no clima.

Inicialmente, os pesquisadores analisaram 36 modelos climáticos globais. Desse total, 14 apresentavam os dados históricos e futuros necessários para os dois cenários considerados.

Na escala de 12 meses, 12 modelos atenderam aos critérios de desempenho estabelecidos pelos autores e foram utilizados na composição do conjunto final.

A equipe aplicou o Índice Padronizado de Precipitação (SPI) nas escalas de seis e 12 meses. O indicador compara a quantidade de chuva registrada em determinado período com os padrões históricos.

Também foi utilizado o Índice de Representação da Seca (DRIP), que avalia a capacidade dos modelos de reproduzir características de secas observadas no passado.

O método considera três aspectos: duração, severidade e período de retorno.

Os modelos que apresentaram melhor desempenho na reprodução dos dados históricos receberam maior peso na análise. De acordo com o estudo, essa metodologia reduziu as incertezas médias em 61% para duração, 70% para severidade e 59% para período de retorno.

Os autores ressaltam que os cenários utilizados não representam uma previsão de que determinada trajetória climática necessariamente ocorrerá. Eles servem para analisar possíveis mudanças nos riscos de seca sob diferentes condições climáticas.

Também foram observadas diferenças entre as sub-bacias. Um cenário de maiores emissões não necessariamente apresenta o maior resultado para todas as variáveis ou em todas as localidades.

Qual a importância do Rio Paraíba do Sul?

A Bacia do Rio Paraíba do Sul ocupa aproximadamente 62 mil quilômetros quadrados e abrange 184 municípios nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Dentro da bacia, cerca de 6,8 milhões de pessoas dependem diretamente de seus recursos hídricos.

O sistema também possui transferências de água para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro e para o Sistema Cantareira, em São Paulo.

Considerando essas conexões, a disponibilidade de água na bacia possui impacto direto ou indireto sobre mais de 20 milhões de pessoas no Sudeste.

Entre as principais estruturas estão os reservatórios de Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil, além de usinas, canais e mecanismos utilizados para controlar as vazões.

Por isso, alterações na disponibilidade de água nas áreas de cabeceira podem produzir efeitos que ultrapassam os municípios localizados nas proximidades dos reservatórios.

Histórico de períodos de seca

A bacia já enfrentou períodos importantes de estiagem, incluindo eventos registrados entre 2001 e 2003 e durante a década seguinte.

A crise hídrica de 2014 e 2015 esteve entre os episódios mais severos do histórico recente. Naquele período, os níveis dos reservatórios foram pressionados e a gestão compartilhada dos recursos hídricos entre os estados ganhou ainda mais importância.

Para a análise dos modelos, o estudo utilizou principalmente dados do período de 1979 a 2018, que serviram como referência histórica.

Em 2026, a situação dos reservatórios voltou ao centro das discussões sobre a segurança hídrica regional, diante de registros de volumes inferiores aos observados no mesmo período do ano anterior.

As projeções apresentadas pelo estudo não indicam quando ocorrerá uma próxima grande seca, mas ajudam a avaliar como mudanças na duração, severidade e frequência dos eventos podem influenciar o planejamento dos recursos hídricos nas próximas décadas.

Confira o estudo AQUI.